Wittich Freitag ( de óculos ao lado de Luiz Henrique) foi um importante empresário, político e por duas vezes prefeito de Joinville
Tome Nota Com Enio Alexandre
Terminadas as eleições, começa imediatamente outra temporada da política: a das perguntas. E, em Joinville, nenhuma parece tão inevitável quanto esta: quem será o próximo prefeito da maior cidade de Santa Catarina?
A cadeira ainda tem ocupante, mas a sucessão já entrou no imaginário dos partidos, dos empresários e daqueles que enxergam na Prefeitura de Joinville não apenas um cargo público, mas um dos mais importantes centros de poder político e econômico do Estado.
A atual prefeita, Rejane Gambin, assumiu a administração depois da saída de Adriano Silva, que deixou o posto para compor como vice a chapa do governador Jorginho Mello. O movimento faz parte de uma construção política que, em tese, poderia abrir caminho para uma candidatura de Adriano ao governo estadual daqui a quatro anos.
Convenhamos: é um roteiro possível, mas que ainda depende de muitas circunstâncias. Mesmo que Adriano deixe o Novo e migre, por exemplo, para o PL, encontrará naquela legenda nomes com trajetória e pretensões eleitorais já consolidadas. Mas essa é uma conversa para outra ocasião.
Por enquanto, o que interessa é o destino político de Joinville.
Rejane Gambin tem pela frente um desafio que vai muito além de administrar a máquina pública. Nunca disputou uma eleição para um cargo majoritário como cabeça de chapa. Sua trajetória política está associada à condição de vice-prefeita e à participação em um governo que, desde a origem, teve Adriano Silva como protagonista.
Há ainda uma questão que não pode ser ignorada: sua ligação histórica com o PT. Em uma cidade onde a direita tem presença eleitoral expressiva e tradição política consolidada, essa associação pode representar um obstáculo para a construção de uma candidatura competitiva. Não significa, necessariamente, que seja impossível superar essa barreira. Significa apenas que ela existe e precisará ser enfrentada.
Nos bastidores, até o vereador Maurício Peixer teria manifestado disposição para compor uma eventual chapa com Rejane, na condição de vice. A ideia seria agregar experiência política e ampliar o diálogo com setores mais “conservadores”. Mas será que uma composição assim seria suficiente para construir uma identidade eleitoral própria? Ou acabaria produzindo uma aliança de conveniência, sem resolver as dificuldades de origem?
A resposta virá com o tempo.
A influência empresarial e a velha crença de que rico não rouba
Há outro personagem que historicamente não costuma ficar de fora das conversas sobre o futuro político de Joinville: o empresariado.
A Associação Empresarial de Joinville, a tradicional ACIJ, tem influência reconhecida nos debates sobre os rumos econômicos e administrativos do município. E não é segredo que empresários estiveram no centro das últimas duas administrações, com Udo Döhler e Adriano Silva.
A pergunta é se esse modelo continuará sendo a principal referência para a escolha de um novo prefeito.
Outros nomes empresariais começam a circular, especialmente aqueles que não carregam histórico eleitoral ou rejeições partidárias mais evidentes. Afinal, para quem pretende construir uma candidatura fora da política tradicional, apresentar-se como empresário pode ser uma estratégia interessante.
Existe, porém, uma frase que insiste em sobreviver no imaginário de parte do eleitorado: “É melhor colocar um empresário. Rico não rouba”.
Sério mesmo?
A ideia de que patrimônio pessoal é certificado de honestidade pública merece, no mínimo, uma boa dose de reflexão. Desde quando possuir uma empresa, administrar grandes negócios ou acumular patrimônio representa garantia de compromisso com o interesse coletivo? Os interesses empresariais não desaparecem quando alguém atravessa a porta da Prefeitura. Pelo contrário: podem continuar presentes, agora em um ambiente no qual decisões públicas afetam diretamente o setor privado.
Ser empresário não desqualifica ninguém para a vida pública. Da mesma forma, ser político não transforma alguém automaticamente em mau administrador. O que deveria contar é a capacidade de governar, a transparência, a responsabilidade com o dinheiro público e, sobretudo, a disposição de representar uma cidade inteira, não apenas os setores que apoiaram sua candidatura.
Os nomes que rondam a sucessão
Entre os políticos com potencial para entrar na disputa está o deputado estadual Sargento Lima. Seu nome aparece como uma possibilidade dentro do campo conservador, embora seja necessário observar como o PL organizará suas forças para a próxima eleição. Na disputa municipal anterior, o partido não demonstrou unidade em torno de um projeto próprio. Integrantes da legenda acabaram apoiando a candidatura de Adriano Silva, o que deixou evidente a existência de diferentes interesses dentro do grupo.
Fernando Krelling também está no radar. Ligado politicamente ao governador Jorginho Mello, o deputado estadual tem interesse em disputar a Prefeitura. O MDB, entretanto, já não ocupa o espaço político de outros tempos em Joinville. A legenda ainda possui quadros e representação, mas enfrenta o desafio de reconstruir uma identidade coletiva.
Os próprios vereadores emedebistas, em diferentes momentos, expuseram prioridades individuais que nem sempre caminham na mesma direção dos interesses partidários. Uma candidatura majoritária exigiria justamente o contrário: unidade, articulação e capacidade de reunir forças.
Diego Machado é outro nome que merece atenção. Tem perfil político e presença na Câmara, mas uma eventual candidatura à Prefeitura exigiria uma composição complexa. Além disso, significaria colocar em risco uma trajetória de reeleição como vereador, algo que naturalmente entra na conta de qualquer projeto eleitoral.
Rodrigo Coelho também poderia entrar na conversa. Com experiência política e passagem pela Câmara dos Deputados, tem condições de participar das articulações. Por enquanto, entretanto, permanece no mesmo ambiente político de Krelling, o que torna necessário entender como essa relação poderá evoluir até a definição das candidaturas.
O PT também quer voltar à mesa
Não se pode ignorar o Partido dos Trabalhadores. Depois de receber perto de 100 mil votos de Lula em Joinville no segundo turno da eleição presidencial, a legenda tem um capital eleitoral que certamente pretende aproveitar.
É evidente que uma eleição municipal não se reproduz automaticamente a partir de uma votação presidencial. São disputas diferentes, com candidatos, alianças, temas e interesses locais. Mas seria um erro imaginar que o PT não tentará transformar esse resultado em presença política na cidade.
A cidade, os empresários e a política
Existe uma constatação que merece reflexão: faz tempo que Joinville não elege um prefeito sem ligação direta ou indireta com o universo empresarial representado pela ACIJ.
Isso não significa que a entidade escolha formalmente os prefeitos, muito menos que tenha controle sobre o voto dos joinvilenses. Mas sua capacidade de articulação, influência e interlocução com o poder público é um elemento importante na história política local.
E, se depender de parte do empresariado, a tradição deverá continuar.
Mas Joinville não é uma empresa. Não tem acionistas, não distribui dividendos e não pode ser administrada apenas pela lógica de resultados de um balanço financeiro. É uma cidade de quase 700 mil habitantes, com problemas de mobilidade, saúde, educação, segurança, habitação, saneamento e infraestrutura. Uma cidade que precisa conciliar interesses econômicos com demandas sociais que nem sempre aparecem nas reuniões dos grandes empresários.
O próximo prefeito terá de conversar com o setor produtivo, evidentemente. Mas também precisará ouvir os trabalhadores, os servidores públicos, os bairros mais afastados, os pequenos comerciantes, os jovens, os idosos e aqueles que raramente conseguem chegar às mesas onde as decisões são tomadas.
E a pergunta permanece, cada vez mais presente nos corredores do poder e nas conversas de esquina: quem terá coragem, força política e um projeto capaz de convencer Joinville de que chegou a hora de mudar — ou de continuar?

