foto: Gustavo Moreno/STF
Por Milena Tomelin
Desde que o ministro André Mendonça assumiu a relatoria das investigações envolvendo o Banco Master, multiplicaram-se as dúvidas sobre como conduzirá um caso que reúne interesses políticos, financeiros e institucionais de grande magnitude. Há quem questione se Mendonça terá firmeza suficiente para enfrentar o peso dos atores envolvidos. Outros, mais otimistas, acreditam que o discreto ministro poderá ser justamente o responsável por revelar as engrenagens de um escândalo que, segundo indicam os autos, pode alcançar até mesmo integrantes da própria Corte.
Nesta semana, o país foi surpreendido por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal que determinou prisões e diversas medidas cautelares contra investigados, provocando forte repercussão política e jurídica em Brasília.
Ao examinar a decisão, chama atenção um trecho em que Mendonça se manifesta expressamente sobre petição apresentada pela Procuradoria-Geral da República. Pelo teor do despacho, o ministro demonstra clara insatisfação com a postura adotada pelo órgão ministerial, que, ao que tudo indica, teria minimizado a gravidade das informações encaminhadas pela Polícia Federal. O recado, ainda que em tom institucional, parece dirigido diretamente ao procurador-geral Paulo Gonet.
Mendonça afirma “lamentar” que a Procuradoria tenha sustentado inexistir perigo imediato que justificasse a análise urgente do pedido de prisão dos investigados. Em suas palavras:
“Diante desse robusto quadro fático-probatório, lamenta-se que a PGR diga que ‘não se entrevê no pedido, nem no encaminhamento dos autos […] a indicação de perigo iminente, imediato, que induza a extraordinária necessidade de tão rápida e necessariamente sucinta análise do pleito’, razão pela qual conclui que ‘não pode ser favorável aos pedidos cautelares, não podendo aboná-los’ antes que sua manifestação seja apresentada ‘no mais breve tempo possível’.”
A decisão prossegue registrando novos pontos de inconformismo do ministro com a posição da Procuradoria:
“Lamenta-se (i) porque as evidências dos ilícitos e a urgência para adoção das medidas requeridas estão fartamente reveladas na representação da Polícia Federal e no curso desta decisão; conforme documentado nos autos, também (ii) porque se está diante da concreta possibilidade de prevenir possíveis condutas ilícitas contra a integridade física e moral de cidadãos comuns, de jornalista e até mesmo de autoridades públicas; (iii) porque há indicativos de ter havido acesso indevido a sistemas sigilosos da Polícia Federal, do próprio Ministério Público Federal e até mesmo de organismos internacionais como a Interpol.”
O ministro ainda acrescenta um alerta contundente:
“Se as medidas requeridas pela Polícia Federal não forem acolhidas, em caráter de urgência, pode-se colocar em risco a segurança e a própria vida de pessoas que se tornaram vítimas dos ilícitos apontados nestes autos, bem como dificultar sobremaneira a recuperação de ativos bilionários que foram desviados dos cofres públicos e de particulares atingidos pelos variados crimes contra o sistema financeiro nacional apurados nestes autos. Enfim, tempus fugit: no caso específico destes autos, a demora se revela extremamente perigosa para a sociedade.”
A decisão, portanto, envia um recado claro: o relator não pretende tolerar posturas que considere excessivamente cautelosas ou omissas diante da gravidade das suspeitas investigadas. Ao mesmo tempo, sinaliza que a condução do caso poderá ganhar contornos cada vez mais incisivos.
É evidente que a investigação envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro tende a produzir efeitos que ultrapassam os limites de um simples processo criminal. Caso as suspeitas se confirmem, o país poderá assistir à revelação de um dos mais amplos escândalos financeiros e institucionais de sua história recente.
O que se espera, diante de um caso dessa magnitude, é que as decisões judiciais continuem sendo tomadas com firmeza, mas sempre amparadas na lei, nas provas e no devido processo legal — únicos caminhos capazes de garantir que a verdade prevaleça, independentemente de quem seja atingido por ela.


Dra. Milena sempre muito certeira em seus artigos.