Tome Nota com Enio Alexandre
O Joinville que já representou Santa Catarina em várias temporadas na elite do futebol brasileiro hoje luta para encontrar um caminho e até uma liderança disposta a assumir o comando
É difícil olhar para o Joinville Esporte Clube de hoje sem sentir uma mistura de tristeza, indignação e incredulidade.
O clube que já foi representante de Santa Catarina na Série A do Campeonato Brasileiro, que lotava o Ernestão e a Arena Joinville e impunha respeito dentro e fora do Estado, chega a outubro de 2026 diante de mais uma crise institucional, financeira e esportiva.
Agora, o JEC terá uma nova eleição presidencial. Presidente e vice serão escolhidos no dia 23 de outubro, para completar o mandato até 2028. O registro das chapas termina nesta sexta-feira, dia 9. A renúncia de Darthanhan Oliveira foi formalizada nesta semana.
Mas a pergunta que realmente importa é outra: quem vai querer assumir um clube nessa situação?
A recuperação judicial foi aberta em 2022 quando as dívidas estavam estimadas em aproximadamente R$ 50 milhões. O próprio clube apresentou um plano para enfrentar o passivo, que incluía 334 credores.
E o problema não é apenas financeiro.
Dentro de campo, 2026 terminou muito longe do que a torcida esperava. O JEC foi rebaixado no Campeonato Catarinense e caiu na primeira fase da Série D. A Copa Santa Catarina passou a ser a última oportunidade de garantir calendário nacional para 2027.
E é justamente aí que a situação ganha contornos quase surrealistas.
O Joinville disputa uma competição de importância reduzida para o tamanho de sua história e, enquanto a Arena Joinville passa por substituição do gramado, precisa mandar seus jogos em Jaraguá do Sul. Para um clube que já foi protagonista do futebol catarinense e frequentou a Série A, é uma fotografia dolorosa da dimensão da queda.
É preciso fazer uma pergunta incômoda: era realmente inevitável chegar a esse ponto?
O JEC não perdeu apenas divisões. Perdeu relevância, capacidade de investimento, poder de mobilização e, principalmente, perspectiva.
Em 2026, chegou a existir uma tentativa de solução estrutural por meio de uma SAF, com uma proposta que girava em torno de R$ 150 milhões, mas o acordo com a Sportheca acabou desfeito em julho.
Ou seja: até a possibilidade de uma mudança radical de modelo administrativo naufragou.
E agora o clube precisa encontrar alguém disposto a assumir a presidência.
Não é uma tarefa simples. Quem assumir encontrará um clube pressionado por problemas financeiros, necessidade de reorganização administrativa, desempenho esportivo decepcionante e uma torcida que já está cansada de esperar.
Porque existe um limite para o fanatismo.
A torcida do JEC é, historicamente, uma das maiores forças do futebol catarinense. Mas paixão não paga dívida, não monta elenco, não recupera estrutura e não substitui planejamento.
Doze anos de fracassos esportivos sucessivos não são mais uma fase ruim. São um sinal de que alguma coisa estruturalmente precisa mudar.
O JEC precisa parar de administrar o presente como se o passado pudesse sustentá-lo eternamente.
Não pode viver apenas da lembrança dos títulos, dos acessos, das grandes campanhas e dos tempos em que a Arena recebia multidões.
É necessário reconstruir.
E reconstruir significa transparência financeira, profissionalização, responsabilidade administrativa, formação de jogadores, projeto esportivo de longo prazo e, sobretudo, uma definição clara sobre o futuro do futebol profissional.
O clube precisa decidir o que quer ser.
Não há vergonha em recomeçar. Vergonha seria aceitar a irrelevância como destino.
O Joinville tem história, torcida, cidade, marca e tradição suficientes para justificar uma reação.
A eleição do dia 23, portanto, não deveria ser apenas uma disputa pelo cargo de presidente.
Deveria ser uma discussão sobre a sobrevivência e o futuro do Joinville Esporte Clube.
Porque o JEC não pode continuar sendo apenas uma lembrança do que já foi.
A torcida tricolor já fez sua parte durante anos. Agora é o clube que precisa provar que ainda tem um projeto para voltar a ser grande.

