Irã: a Inteligência artificial no campo de batalha

Por Renato Juliano Nascimento

Fala-se muito em inteligência artificial para escrever e-mails, traduzir textos ou resumir documentos. Mas, nos últimos dias, a Inteligência Artificial apareceu em um contexto bem diferente: a guerra. Segundo uma reportagem da Bloomberg, o Exército dos Estados Unidos teria utilizado Claude, uma inteligência artificial desenvolvida pela empresa Anthropic, em operações militares relacionadas às tensões com o Irã.

E o que torna essa história ainda mais surpreendente é o momento em que tudo aconteceu. Apenas algumas horas antes dos ataques contra o Irã, Donald Trump havia pedido às agências federais norte-americanas… que parassem de utilizar essa inteligência artificial, após um desacordo com a empresa que a criou. Mas, na prática, a situação é mais complexa.

Claude já está tão integrado em alguns sistemas do Pentágono que substituí-lo levaria meses. Como resultado, apesar desse embate político com a Anthropic, o Exército continua se apoiando nessa ferramenta em determinadas operações.

Mas, na prática, o que faz uma inteligência artificial em uma operação militar? De acordo com informações da Bloomberg, a IA não dispara mísseis nem decide sozinha realizar um ataque. No entanto, ela pode analisar uma quantidade gigantesca de informações: imagens de satélite, comunicações interceptadas, deslocamento de veículos, dados de geolocalização.

Em resumo, tudo aquilo que nenhum ser humano conseguiria analisar completamente. Em poucos segundos, a máquina pode identificar padrões, cruzar dados e até simular diferentes cenários de combate. No caso específico do Irã, o Exército dos Estados Unidos explica que a IA foi utilizada para três funções: analisar informações de inteligência, identificar possíveis alvos e simular cenários militares.

Em outras palavras, a inteligência artificial está se tornando uma espécie de superanalista militar. Mas há também um problema. Esses sistemas de IA não são perfeitos. Eles podem produzir o que se chama de “alucinações”: respostas erradas apresentadas com grande segurança.

Na vida cotidiana, isso não costuma ser muito grave. Todos nós já vimos ou lemos respostas equivocadas geradas por inteligência artificial em computadores ou smartphones. Mas, em um contexto militar, essas alucinações podem ser literalmente mortais.

Como lembra a Bloomberg, algo semelhante já ocorreu na guerra em Gaza com um sistema chamado Lavender, que atribuía pontuações de probabilidade a pessoas para determinar se poderiam ser combatentes. Segundo algumas investigações, o algoritmo errava aproximadamente uma vez em cada dez casos. Imagine: uma em cada dez pessoas.

E existe ainda outra dificuldade: as regras. Em teoria, o direito internacional exige que qualquer novo sistema de armamento seja testado antes de ser utilizado. Com a inteligência artificial, porém, a situação se torna mais nebulosa, porque esses sistemas evoluem constantemente por meio de atualizações.

Além disso, eles permanecem bastante opacos. As empresas de IA nem sempre revelam como seus modelos chegam às conclusões. Já os exércitos, por natureza, trabalham sob sigilo. O resultado é que se torna muito difícil entender como essas tecnologias estão sendo realmente utilizadas.

Essa história também revela algo novo. Durante séculos, os Estados controlaram suas armas. Hoje, algumas tecnologias estratégicas — especialmente a inteligência artificial — são desenvolvidas por empresas privadas.

E isso levanta uma pergunta simples, mas fundamental: até que ponto estamos dispostos a permitir que uma máquina participe das decisões mais graves, aquelas que podem levar à morte de seres humanos?

A inteligência artificial provavelmente não substituirá os generais. Mas uma coisa é certa: ela já está se tornando o copiloto estratégico deles.

Escrito por Redação

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