A morte do cão Orelha, registrada em Florianópolis e marcada por forte repercussão nas redes sociais em todo o Brasil, voltou ao centro do debate político. Na última quarta-feira (13), o deputado estadual Mário Motta (PSD) apresentou na Assembleia Legislativa (Alesc) um pedido formal para criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) com o objetivo de reavaliar os bastidores do caso.
O movimento ocorre em meio ao encerramento do procedimento investigativo no âmbito do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), que solicitou o arquivamento do inquérito após conclusão pericial indicando que o animal sofria de enfermidade avançada e teria morrido por causas naturais, sem comprovação de agressão direta.
Desfecho oficial não encerra questionamentos
Mesmo com o posicionamento do Ministério Público, o deputado afirma que o episódio ainda apresenta “zonas de sombra” e levanta dúvidas sobre a forma como as informações foram divulgadas ao longo da investigação. Na visão do parlamentar, a sucessão de versões, vazamentos e declarações públicas alimentou um cenário de confusão e fragilizou a credibilidade do processo.
O pedido de CPI tenta reconstruir cronologicamente os fatos e examinar pontos que, segundo Motta, não foram esclarecidos de forma satisfatória. Entre eles estão o surgimento de um adolescente citado inicialmente como suspeito, o acesso antecipado a supostas provas por autoridades e a falta de transparência sobre registros de câmeras de monitoramento.
Busca por assinaturas e comissão independente
Para sair do papel, a CPI precisa de 15 assinaturas de deputados estaduais. Motta já iniciou articulações nos corredores da Alesc para reunir apoio suficiente e formalizar a comissão.
Caso instalada, a investigação parlamentar pretende ouvir pessoas envolvidas na apuração e coletar documentos para avaliar se houve falhas, omissões ou contradições durante o andamento do inquérito. A intenção, segundo aliados do deputado, é produzir um relatório final com conclusões objetivas e recomendações institucionais.
Veterinário, porteiro e imagens podem ser convocados
O requerimento prevê que a CPI tenha acesso a material completo do caso, incluindo laudos técnicos, depoimentos e registros audiovisuais. Estão entre os nomes que podem ser chamados para prestar esclarecimentos o veterinário responsável pela eutanásia, o porteiro do local onde o animal foi encontrado e agentes ligados diretamente à condução da ocorrência.
Além disso, a comissão poderá solicitar análise detalhada de perícias e reexaminar informações que circularam durante os primeiros dias do caso, quando a hipótese de maus-tratos ganhou força e mobilizou entidades de proteção animal.
Federalização também entra no debate
Durante conversas com parlamentares e representantes da causa animal, Mário Motta também citou a possibilidade de levar o caso a instâncias federais, caso permaneçam dúvidas sobre a condução local.
“É um caso confuso e repleto de incongruências. Para mim está muito claro que aconteceram falhas na investigação. E se houve falhas, Santa Catarina e o Brasil merecem respostas”, declarou.
Deputado nega perseguição e diz buscar “verdade institucional”
Motta destacou que a proposta não tem caráter de retaliação e que não pretende transformar a CPI em um palco político. Segundo ele, o objetivo é evitar que o episódio seja encerrado sem uma apuração completa e sem explicações públicas.
“Não é caça às bruxas nem vingança. O Orelha comoveu o Brasil inteiro. Não vamos deixar esse caso ser engavetado sem uma resposta à altura. Precisamos de uma resolução eficaz, que faça justiça e não deixe a impunidade falar mais alto”, afirmou.
Com a movimentação na Assembleia, o caso Orelha ganha um novo capítulo e pode voltar a ocupar espaço no noticiário, desta vez com foco na atuação das instituições, no rigor das investigações e no impacto social de um episódio que dividiu opiniões e gerou indignação em todo o Estado.

