Vanessa da Rosa é vereadora em Joinville
Tome Nota com Enio Alexandre
Vejo muita gente da direita reclamando que falta união. E não é raro alguém da família Bolsonaro entrar em choque com aliados que pensam diferente. Em Santa Catarina, então, o cenário é claro: a direita se divide entre Jorginho Mello e João Rodrigues, cada um tentando puxar o eleitorado para o seu lado.
Mas quem acha que na esquerda tudo é harmonia e abraço coletivo, se engana feio.
Em Joinville, por exemplo, o Partido dos Trabalhadores tem um caso que ilustra bem como a falta de articulação não é exclusividade de um campo político.
O movimento negro em Santa Catarina quer ampliar sua representatividade. E não há qualquer dúvida de que as mulheres precisam aumentar sua presença na política. Pois bem: Joinville tem um nome que encaixa perfeitamente nessas duas demandas.
A vereadora Vanessa da Rosa.
Ela garantiu suplência na última eleição e, agora, com experiência de mandato de vereadora e mais estrutura, tem tudo para dar o próximo passo e se eleger deputada estadual. Seria uma candidatura natural, forte e com potencial de crescimento.
Mais do que isso: seria esperado que Ana Lúcia, também negra e do mesmo partido, apoiasse Vanessa, até porque, com Vanessa eleita para a Assembleia Legislativa, Ana Lúcia herdaria a vaga na Câmara de Vereadores de Joinville. Um cenário de ganho duplo para o PT.
Mas aí começam os problemas.
Ana Lúcia também quer concorrer a deputada estadual. Mesmo partido. Mesmo nicho eleitoral. Mesma base de votos. O resultado é previsível: a chance de Joinville perder a vaga cresce, e muito.
E isso não é novidade. É um velho problema da cidade: o PT de Joinville, repetidas vezes, não consegue superar as disputas internas quando deveria somar forças.
O mais curioso é que Vanessa da Rosa, mesmo com mandato e espaço político, já sinalizou disposição de concorrer a deputada federal, pelo bem do partido — mesmo sabendo que a disputa seria ainda mais difícil.
Complicado entender por que o que parece óbvio está tão longe de acontecer.
E por essas e outras, o maior colégio eleitoral de Santa Catarina segue elegendo poucos representantes. A articulação política definitivamente não é o forte dos políticos de Joinville — seja de qual partido for.


Esse tipo de leitura é extremamente limitada e desconsidera um ponto fundamental: a força, a autonomia e a vontade política de mulheres negras em Santa Catarina.
Reduzir a atuação de Vanessa da Rosa e Ana Lúcia a uma “disputa que atrapalha” é ignorar que ambas têm trajetória, legitimidade e, acima de tudo, o direito de se colocar como opção ao eleitorado. Não se trata de falta de articulação — trata-se de representatividade real sendo construída, mesmo diante de um cenário historicamente excludente.
Comparar isso com disputas da direita é completamente fora de contexto. São dinâmicas diferentes, histórias diferentes e, principalmente, desafios muito mais complexos quando falamos de mulheres negras ocupando espaços de poder.
Além disso, existe um tom bastante problemático ao sugerir que uma deveria “ceder” à outra como se esse fosse o caminho natural. Não é. Democracia pressupõe विकल्प, disputa de ideias e liberdade de candidatura — não acordos forçados baseados em conveniência eleitoral.
Vanessa e Ana Lúcia não estão “dividindo”, estão ampliando. Estão mostrando coragem ao não se acomodarem e ao enfrentarem um sistema que, historicamente, tenta limitar quem pode ou não pode chegar.
Postagens como essa acabam revelando mais sobre quem escreve do que sobre a realidade política. Há um certo interesse em criar conflito onde existe, na verdade, protagonismo.
E ninguém é ingênuo: dá para perceber bem quando a intenção é ver o cenário “pegar fogo” só para assistir de fora.